Skip to content

#Elenão, #Elassim e a luta contra o fascismo no Brasil

Candidato às presidenciais brasileiras Jair Bolsonaro menospreza as mulheres, e sua candidatura personifica a sociedade patriarcal na qual vivemos. English, Español

Published:
elenão1_0.jpg
elenão1_0.jpg

Ele não manifestação. Wikimedia commons. Todos os direitos reservados.

Em Um teto todo seu, Virginia Woolf escreveu que, havia séculos, as mulheres serviam como espelhos com poderes mágicos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural.

Esses espelhos, fundamentais para ações violentas, explicavam a insistência de personagens, como Mussolini, na inferioridade de mulheres, porque se elas não fossem menores, eles deixariam de crescer.

Quase cem anos depois, a alegoria do espelho ainda constitui um recurso para assegurar a supremacia masculina e, no cenário político brasileiro, aparece traduzida em discurso de ódio contra as mulheres, mas também contra toda sorte de grupos mais vulneráveis na fala do candidato à presidência Jair Messias Bolsonaro.

A opção pela violência como resposta aos problemas do país ilustra como fazer política, para o ex-capitão do Exército, significa transformá-la em campo de guerra, fabricando inimigos e liquidando-os.

No Brasil, coube às mulheres, que, junto a outras minorias, são alvos da violência propagada pelo candidato, nomear devidamente o que ele representa.

Como exemplo do discurso e da tática de Bolsonaro, há a declaração dirigida à deputada federal Maria do Rosário (PT): “é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria”.

Nomear é preciso, porque adjetivos eufêmicos como “conservador” ou “polêmico”, empregados pela mídia tradicional e por alguns setores das elites políticas brasileiras, não expressam a brutalidade de afirmar a disponibilidade dos corpos femininos.

Como exemplo do discurso e da tática de Bolsonaro, há a declaração dirigida à deputada federal Maria do Rosário (PT): “é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria”.

Essa fala se insere em um país que registrou, em 2017, um aumento do número de estupros, com média de 164 casos por dia, podendo totalizar, considerando a subnotificação, 500 mil casos por ano.

As mulheres, designadas por Bolsonaro como “fraquejadas” e desenhadas como objeto de sujeição, são, no entanto, a maioria da população, havendo 4,5 milhões de mulheres a mais do que homens, segundo o IBGE.

Ainda de acordo com o instituto, elas trabalham, em média, 7,5 horas semanais a mais do que os homens (somando as atividades remuneradas e não remuneradas) e, embora sejam mais escolarizadas, têm uma renda média nacional mais baixa: enquanto os homens ganham em torno de R$ 2.251, elas recebem R$ 1.762.

Um estudo do Fórum Econômico Mundial de 2016 aponta que seriam necessários 95 anos para o Brasil alcançar a equiparação salarial entre homens e mulheres.

Outro exemplo. Em uma rede de TV, o ex-capitão afirmou que mulheres deveriam ganhar menos, porque engravidam. Ao justificar a desigualdade salarial, Bolsonaro ataca tanto o trabalho feminino formalmente assalariado, quanto o trabalho doméstico não remunerado. Assim, o artifício de detração das mulheres passa, duplamente, pela expropriação de sua força de trabalho.

Se lembrarmos do argumento de Silvia Federici sobre o desenvolvimento do capitalismo, veremos que, como as mulheres foram as produtoras e reprodutoras da mercadoria mais essencial – a força de trabalho –, o barateamento do custo da produção do trabalho exige o uso de máxima violência e guerra contra as mulheres.

Nesse sentido, quando o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, o general Mourão, declara que famílias comandadas por mães e avós são “fábricas de desajustados”, o tom intimidador e a desvalorização da mulher em si se intensificam.

Ao associar o trabalho doméstico não remunerado à criminalidade, ele insinua, mais uma vez, uma saída pela repressão e pela violência.

O discurso de Bolsonaro alimenta, dessa maneira, imaginários regressivos, como observou o professor de Harvard, Bruno Carvalho, e já produz efeitos públicos.

Se, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, o modelo público de mulher cultivado por Michel Temer parecia datar da boa esposa dos anos 1950, com a candidatura de Bolsonaro, a objetificação das mulheres alcançou um patamar mais drástico, que flerta com a desumanização fascista do outro, convertido em inimigo, ou que recua ainda mais no tempo, evocando uma medieval caça às bruxas.

Os efeitos públicos das falas de Bolsonaro conduzem seus apoiadores a uma nostalgia dos tempos em que mulheres tinham seu espaço restrito, em que não se discutia gênero nas escolas, em que não havia discussão sobre igualdade de direitos e oportunidades para cada cidadão. 

Os efeitos públicos das falas de Bolsonaro conduzem seus apoiadores a uma nostalgia dos tempos em que mulheres tinham seu espaço restrito, em que não se discutia gênero nas escolas, em que não havia discussão sobre igualdade de direitos e oportunidades para cada cidadão.

Eles são nostálgicos da ditadura instaurada em 1964, quando os que resistiam ao sistema eram silenciados e torturados. Foi a fragilidade do nosso processo de redemocratização que criou as brechas para a possível eleição de um ex-capitão, que faz declarações públicas a favor do uso de armas de fogo, da tortura e da volta da ditadura.

Para dar um último exemplo, recentemente, apoiadores de Bolsonaro quebraram uma placa em homenagem à Marielle Franco, vereadora negra, lésbica, militante dos direitos humanos, moradora de favela, que foi barbaramente executada em março deste ano. Não é gratuita a violência à memória de Marielle.

O avesso do ódio e símbolo de outro mundo possível, ela vocalizava as mulheres negras, a base da pirâmide social brasileira, aquelas que mais sofrem com assédios, estupros, baixos salários e violência doméstica e que constituem a maior rejeição ao que Bolsonaro representa.

Por sua vez, o que Marielle representa é a nossa resistência à exploração e à marginalização. Inspirado nela e em outras mulheres revolucionárias, o jogo de imagens que depende de apequenar mulheres parece ter se alterado em 29 de setembro, quando manifestações suprapartidárias por elas convocadas em pelo menos 65 cidades do Brasil deram a dimensão da energia política feminina e do seu protagonismo na luta antifascista.

Mulheres e outros grupos vulneráveis, ao mesmo tempo em que são correntemente explorados e marginalizados pelo patriarcado e pelo capitalismo, constituem partes vitais do funcionamento da sociedade.

Conforme reivindica a segunda onda do feminismo, está na posição mesma de subalternidade a possibilidade de acumulação de um conhecimento próprio, capaz de transformar a exclusão em potencial revolucionário. Assim, o conhecimento se abre como forma de oposição aos diversos tipos de dominação.

A principal implicação de levar a sério essa perspectiva reside na ideia de que essa classe revolucionária – mulheres e outros grupos vulneráveis – tem as condições de modificar a sociedade. Isso ajuda a clarificar nosso papel vital na mudança de normas e tratamentos sociais injustos. 

Cercas, como as produzidas pelo discurso de Bolsonaro, que precisam ser derrubadas, em atos cotidianos de resistência, para vislumbrar a possibilidade de um futuro melhor para o Brasil, em que mulheres e grupos vulneráveis sejam vistos com o tamanho e a força que realmente têm. 

openDemocracy Author

Nathália Sanglard

Nathália Sanglard is a Lecturer at the Federal Rural University of Rio de Janeiro. She holds a PhD in History from the Federal Fluminense University (Brazil, 2017). She works on History of Brazil, with emphasis on the First Republic, especially on issues of Brazilian historiography in the nineteenth and early twentieth centuries, Intellectual history and History and ethnography.


Nathália Sanglard es profesora de la Universidad Federal Rural de Río de Janeiro. Tiene un doctorado en Historia de la Universidad Federal Fluminense (Brasil, 2017). Trabaja en Historia de Brasil, con énfasis en la Primera República, especialmente en temas de historiografía brasileña en el siglo XIX y principios del siglo XX, Historia Intelectual e historia y etnografía.

All articles
openDemocracy Author

Katarina Pitasse Fragoso

Katarina Pitasse Fragoso is PhD candidate in Political and Moral Philosophy, at the Catholic University of Louvain (Belgium), where she is a member of the Hoover Chair of Economic and Social Ethics. Her PhD is financed by the Brazilian Ministry of Education (CAPES) and her research interests include issues of poverty, participatory programmes and capability theory.


Katarina Pitasse Fragoso es candidata de un doctorado en Filosofía Política y Moral, en la Universidad Católica de Lovaina (Bélgica), donde es miembro de la Cátedra Hoover de Ética Económica y Social. Su doctorado está financiado por el Ministerio de Educación de Brasil (CAPES) y sus intereses de investigación incluyen temas de pobreza, programas participativos y teoría de la capacidad.

All articles

More in Conflict & security

See all

More from Nathália Sanglard

See all